Você Sabia? Massacre da Lapa virou tema de livro

Foto: Jornalista Alberto Villas

Foto: Jornalista Alberto Villas

Bem amigos Lapeanos, a História nem sempre nos remete a fatos heróicos, e em nosso bairro não poderia ser diferente. Ainda adolescente, vivi o episódio da chacina no bar da rua Aurélia, um pequeno comércio que ficava algumas casas antes da portaria da Sabesp, quarteirão que antecede o cruzamento com a rua Mario. Em meio a agitação daquele crime, ficou marcado em minha memória, os comentários que vieram à tona sobre a chacina da rua Pio XI, onde membros do partido PCdoB foram mortos.

Recentemente, pesquisando sobre o assunto, encontrei uma crônica do jornalista Alberto Villas de 03 de dezembro de 2006, publicada no site do Fantástico na Globo.com, quando já decorridos 30 anos do massacre. O jornalista ficou sabendo do fato quando morava fora do Brasil e em 2006, já vivendo em São Paulo no bairro da Lapa, contou a história que também ficou marcada em sua memória.

Esse crime ficou conhecido como o “Massacre da Lapa” e virou tema de um livro lançado pela Editora Fundação Perseu Abramo também em 2006, escrito por Pedro Estevam da Rocha Pomar.

Abaixo segue a crônica que vale conferir.

Antonio Fonseca – TV da Lapa

A China perdeu Mao Tsé-tung e Chou En-lai. E prendeu Chiang Ching, a viúva do Mao. O socialismo chegou a Portugal pelas mãos de Mário Soares. O mistério foi desvendado com a morte de Agatha Christie. A ditadura chegou à Argentina pelas mãos de ferro de um general chamado Jorge Rafael Videla. A França perdeu um intelectual de primeira , André Malraux. O Brasil ficou sem dois ex-presidentes: o exilado João Goulart, vítima de um enfarto fulminante em sua fazenda em Mercedes, e o cassado Juscelino Kubitscheck, que morreu no meio do caminho, entre São Paulo e o Rio de Janeiro.

Nos Estados Unidos, o doutor Lee Taylor, do Conselho de Qualidade Ambiental, alertou o mundo: “Se não dermos um basta ao massacre de animais, em 30 anos o homem será o único mamífero da face da Terra”. Em Toronto, um grupo de esquimós, uma espécie de sem-gelo, fez um protesto exigindo 64 milhões de hectares de terra do Canadá.

Mas o ano de 1976 terminou com uma notícia trágica. Foi perto do Natal, bem cedinho, 7 horas da manhã . Era quinta-feira 16 de dezembro quando um grupo de policiais invadiu uma casinha cinza de número 767 na Rua Pio XI , no bairro da Lapa , em São Paulo. Armados até os dentes com metralhadores, carabinas e revólveres, estavam prontos para matar . Foram 20 minutos de tiroteio , de massacre.

A casa vinha sendo vigiada por 40 agentes do DOI havia três meses. Minuciosamente vigiada. Quando entraram foi mesmo para eliminar. Mataram Pedro Ventura de Araújo Pomar, de 63 anos, e Ângelo Arroyo, de 48, dirigentes do Partido Comunista do Brasil, o PCdoB, dissidência do Partido Comunista Brasileiro. O terceiro, João Batista Franco Drummond, morreu atropelado ali perto depois de conseguir fugir do cerco da ditadura.

O massacre da Lapa, como ficou conhecido, foi noticiado discretamente no Brasil. Não virou manchete de jornal nem capa de revista semanal. Mas a notícia correu mundo. Chegou a Paris, mais precisamente ao bairro onde eu morava, o XXème. Um cartaz feito de papel jornal foi colado num muro bem em frente ao meu prédio. O cartaz trazia foto em branco e preto de Pomar, Arroyo e Drummond, todas perfuradas por balas de metralhadora. “Le massacre de Lapa” foi escrito em letras garrafais em vermelho, cor de sangue.

Ainda não havia para mim o bairro da Lapa . Em 1976 não conhecia São Paulo e não tinha idéia de onde ficava a tal casinha cinza da Rua Pio XI. Pela fotografia que vi na revista “Veja” que meu irmão enviou pelo correio, percebi que era bem simples, construída nos anos 50, com alpendre e rosas no jardim.

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